Jornalista, professor de Comunicação Digital da Famecos/PUCRS, consultor em novas mídias. Além de seu blog pessoal, mantém o Garfada e o Conversas Furtadas. Para entrar em contato, clique aqui.

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Perguntas freqüentes

JornalismoWebjornalismo participativoBlogsWikis

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Fale-me um pouco de você.
Eu tenho 29 anos e nasci em Santa Cruz do Sul-RS, mas moro desde os 6 anos em Porto Alegre. Sou formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e fiz mestrado em Comunicação em Informação lá, também, entre 2005 e 2007. Cheguei a cursar Farmácia por três semestres, mas a irresistível força do aleatoriedade existencial me fez de alguma forma conseguir transferência para o curso de Jornalismo. Lá conheci gente como André Czarnobai e Daniel Galera, com quem depois escrevi o primeiro fanzine por e-mail do Brasil, o Cardosonline. Fiz estágio na revista de cultura Aplauso, colaborei uma ou outra vez com a Carta Capital, escrevi roteiros para vídeos institucionais e campanhas políticas da Casa de Cinema, fui entrevistador em uma pesquisa de mercado, doei trabalho para as finadas revistas Fraude.org, Radar Interativo e Type. Fui editor de capa do portal Terra entre 2002 e 2005. Depois disso fiz o mestrado, entrei na PUCRS como professor de Comunicação Digital e também me tornei Coordenador de Digital Public Relations da agência de marketing LiveAD. Hoje minha ocupação principal é a atividade acadêmica, mas também dou consultoria em novas mídias para empresas de publicidade. Na Famecos, sou um dos professores responsáves pela Cyberfam e participo do podcast semanal.

Seu sobrenome é alemão ou o quê? Como se pronuncia Träsel?
É alemão. Minha família veio para o Brasil de Sehnheim am Mosel, no século XIX, e se estabeleceu no Vale do Taquari. Pronuncia-se TRRÊÊZÊL, mas fica tão afetado que nem eu mesmo falo assim. Pode me chamar de "Trézel".

Como você começou a blogar?
Foi no ano de 2002. Eu decidi passar seis meses viajando de mochila pela Europa depois de terminar a faculdade de Jornalismo na UFRGS. Achei que perderia muito tempo no sistema de webmail da Portoweb inserindo os endereços de correio eletrônico de toda minha família e amigos, então, por sugestão do Daniel Pellizzari, criei um blog chamado Martelada. O nome é uma referência ao filósofo Nietzsche, que dizia fazer uma "filosofia a golpes de martelo". Na época eu estava lendo as obras dele e, como se pode depreender, era um tanto presunçoso. Tomei gosto pela brincadeira de blogar e na volta da viagem mantive a atualização.

E o blog Garfada?
Certo dia, um professor de yoga comentou que "quem não sabe preparar a própria comida, não merece viver". Essa afirmação calou fundo em meu ser e daquele momento em diante passei a cozinhar sempre que tenho tempo livre. Como os posts sobre comida estavam tomando conta de meu blog pessoal, resolvi criar e setembro de 2005 o Garfada, na comunidade Insanus.org, para onde havia me mudado depois do fim do Exquisite.

E o blog Conversas Furtadas?
Um dia, durante o mestrado, eu estava comendo no Restaurante Universitário da UFRGS. O cardápio incluía mocotó. Uma menina sentou perto de mim e as amigas se enojaram: "Ui! Tu pegou esse troço nojento com tripa?". Ela respondeu: "Ah, eu pensei que era uma salada de feijão branco!". Ao ouvir isso, pensei no quanto seria legal ter um blog onde pudesse publicar esses pedaços de diálogos que sempre se ouve na rua. Aí nasceu o Conversas Furtadas, em maio de 2005. Só depois eu fui descobrir que já existia algo assim, o Overheard in New York.

Onde posso encontrar artigos acadêmicos escritos por você?
Alguns no meu perfil do Scribd, outros no site do Laboratório de Interação Mediada por Computador da UFRGS.

Você quer colaborar com a minha revista eletrônica sobre literatura/música/cultura/gastronomia/cinema/etc.?
Quanto paga? Não me entenda mal, mas já colaborei com muitas "publicações independentes" na vida. Fiz minha parte. Se você ainda está "viabilizando o modelo de negócios", volte a entrar em contato quando terminar e puder remunerar seus colaboradores.

Jornalismo

Você acha que os sites de notícias tem a aspiração de substituir os jornais impressos?
Alguns deles talvez tenham, outros não, mas prefiro chamar atenção para o fato de que, independente da vontade de uns e outros, os jornais impressos serão substituídos por sites de notícias. Isso acontecerá à medida que os consumidores de jornais impressos forem falecendo e dando lugar a uma geração criada usando a Web para se informar. É claro, os jornais impressos de hoje já têm quase todos versões online, então somente teremos as notícias em outro suporte. O jornalismo em si não está ameaçado. Do ponto de vista econômico, imprimir jornais não faz mais o menor sentido. Há todo um gasto com matéria-prima, manutenção de gráficas, distribuição etc. que poderia ser simplesmente eliminado do negócio. Do ponto de vista ambiental também faz pouco sentido continuar usando papel, quando se tem um suporte muito mais amigável para a natureza. Acredito que os jornais impressos continuarão existindo em locais onde o acesso à Internet é mais difícil por problemas de infraestrutura, como na África, ou nas sociedades que ainda estão em vias de industrialização.

Webjornalismo participativo

O que é webjornalismo participativo?
O webjornalismo participativo acontece quando um site ou uma seção de um site jornalístico permite interferênias tão profundas no conteúdo (e por vezes na forma) que a divisão entre escrita e leitura começa a ficar indistingüível. Em outras palavras, há webjornalismo participativo se as colaborações do público forem essenciais para a manutenção de um site ou parte dele. O Leitor-Repórter não aconteceria se as pessoas não enviassem textos, fotos e vídeos para lá, assim como o Ohmynews estaria vazio se não fossem os repórteres-cidadãos espalhados pelo mundo. Para saber mais, leia a minha dissertação de mestrado.

Acredita que conteúdos colaborativos podem substituir o jornalismo tradicional?
Não. O jornalismo participativo é uma forma que as empresas de mídia e a sociedade encontraram de enfrentar o problema da falta de recursos nas redações, que impede a cobertura de todos os assuntos de interesse do público. É, portanto, complementar. Além disso, há a questão da credibilidade. O público pode ser bom para noticiar um buraco na rua onde moro ou uma foto de um acidente, mas eu não basearia o investimento da minha poupança em uma dica de algum blogueiro anônimo, por exemplo. Nesse caso, procuraria ler o Valor Econômico ou Wall Street Journal. É tudo uma questão de bom senso.

Qual é o papel do jornalista dentro do jornalismo colaborativo?
Orientação, edição e, claro, participação. Nos dois exemplos citados acima há jornalistas selecionando as melhores matérias e checando fatos. Porém, existem projetos de jornalismo participativo em que os colaboradores mesmos regulam o processo de coleta, edição e publicação de notícias, como no Kuro5hin ou no Wikinotícias. Nada impede que jornalistas colaborem com esse tipo de site, porém. De fato, alguns repórteres escrevem para webjornais participativos ou criam blogs com o objetivo de abordar assuntos em que não podem tocar em sua vida profissional.

Você acredita que existe jornalismo colaborativo no Brasil? Qual é a maior diferença entre os sites colaborativos daqui e sites de outros países?
Existe e não vejo diferença alguma, exceto pela língua, o que nos limita em termos de audiência. Outra coisa que nos limita é o analfabetismo funcional da população, que impede um ganho de escala nas colaborações. Por causa disso, há pouca atualização nos webjornais totalmente participativos.

Quais são as diferenças entre o jornalismo colaborativo e o jornalismo tradicional?
Em primeiro lugar, é preciso ter sempre em mente que o jornalismo participativo é complementar ao jornalismo tradicional. Há indícios de que a maioria dos valores-notícia do jornalismo tradicional valem para o jornalismo participativo, mesmo quando não há supervisão de um profissional qualificado. Assim, eu diria que o jornalismo participativo é uma subcategoria do jornalismo, não uma atividade completamente separada. O que é característico do jornalismo participativo é a interferência direta do público, que não precisa mais esperar pelos repórteres profissionais para divulgar uma informação. Isso, é claro, traz implicações boas e ruins. Por um lado, há mais pluralidade de pontos de vista e maior variedade de acontecimentos divulgados. Por outro, nem sempre as informações são checadas adequadamente antes de serem publicadas.

O que é necessário para cativar e manter o público?
Ser honesto. :-)

Quais são as falhas que a mídia tradicional comete nos projetos de jornalismo colaborativo?
A principal falha é pretender abrir um espaço de participação sem abdicar do controle sobre o processo de comunicação, ao menos em parte. Empresas que não têm uma cultura de participação por vezes criam um canal participativo com o único objetivo de "não ficar para trás" da concorrência. Isso acaba quase sempre sendo um tiro no pé, porque criam sistemas engessados, que terminam por morrer melancolicamente de falta de participação.

Por não existir legislação na internet, como fica a questão da ética?
Bem, a ética não é nem nunca foi uma questão de legislação, mas sim de caráter. Assim como há blogueiros e repórteres amadores antiéticos, há jornalistas antiéticos. Casos não faltam para provar que nossos colegas estão no mesmo nível do resto da humanidade em termos de caráter. Por outro lado, toda a legislação já existente para coibir casos de calúnia, difamação, má-fé e outros crimes de imprensa vale para a Web e para o jornalismo participativo. Qualquer pessoa que se sinta lesada por um veículo de jornalismo participativo pode requerer seus direitos na Justiça.

Blogs

Blog é literatura?
Não sei responder a essa questão. Pergunte ao Daniel Galera.

Blog é jornalismo?
Pode ser, se o conteúdo publicado atingir os critérios para um texto ser considerado jornalismo. Isto é, se houver antes de mais nada preocupação com o interesse público e os textos forem imparciais e o mais objetivos possível. Também acho importante que exista uma intenção do blogueiro em produzir uma peça jornalística. Caso contrário, trata-se apenas de um relato informativo.

Hoje, qual é a importância dos blogs?
Os blogs são importantes em vários níveis, dependendo dos objetivos de quem os lê ou escreve. No caso da mídia, diria que são importantes para preencher as lacunas deixadas abertas pela escassez de recursos do jornalismo, e como fiscalizadores do "quarto poder", apontando erros e denunciando falcatruas de jornalistas, publicitários e relações públicas.

Você acredita que o blogueiro pode vir a ocupar o lugar do jornalista?
Não, pelos mesmos motivos acima e por um motivo mais forte: blogueiros em geral não têm recursos para a apuração de pautas. Mesmo um telefonema interurbano é um custo alto quando não se ganha nada em troca do trabalho. Imagine pagar os custos de um inevitável processo judicial no caso de você descobrir e publicar alguma denúncia de corrupção no governo, por exemplo. Os blogueiros podem vir a substituir os jornalistas em alguns assuntos de nicho, e nesse caso talvez com muito mais qualidade. Os jornais têm espaço limitado ou, no caso da Web, limitações de força de trabalho. O jornalismo tradicional não tem condições técnicas ou econômicas de tratar com profundidade todos os assuntos. Aí entram os blogs, para dar profundidade.

Os blogs se assemelham com o início da imprensa, quando ela era declaradamente opinativa?
Creio que essa é uma comparação falaciosa. A imprensa política do início da revolução industrial foi moldada por uma série de fatores históricos, políticos e econômicos bem diferentes da sociedade atual. Os blogs já surgem num momento em que os valores de objetividade e imparcialidade são os valores máximos do jornalismo. Por causa disso, os blogs que se propõem a fazer jornalismo observam os princípios modernos da profissão. Mesmo os blogs que se afastam desses princípios e passam a misturar opinião à informação já estão partindo de um patamar diferente. É uma atitude de recriação do jornalismo, não de volta ao passado. Alguns grupos pensam que a objetividade e a imparcialidade não dão mais conta de atender ao interesse público e por isso passam a produzir essa informação semelhante ao jornalismo político do início da imprensa, mas com premissas e agendas bem diferentes.

Os blogs realmente democratizam a informação?
Não. A Internet democratiza o acesso à informação, mas a produção de informação continua pouco democrática, em termos de jornalismo. A maioria dos blogs e outros tipos de mídia social simplesmente adicionam uma camada de opinião à informação produzida pela imprensa tradicional, pelos jornalões, pelas emissoras de TV, pelas agências de notícias. O conteúdo informativo original produzido por não-jornalistas é raro. Muitos dos blogs que produzem informação em primeira mão pertencem a jornalistas. As fontes até têm boa vontade, não é difícil conseguir uma credencial se apresentando como autor de um site independente, nisso há bastante avanço. Porém, ainda está para surgir um movimento de pessoas de camadas tradicionalmente excluídas do processo produtivo da notícia tomando nas mãos a produção de informação. Onde estão os blogs jornalísticos feitos por pequenos comerciantes, donas de casa da periferia, pedreiros, agricultores? O problema da democratização não é só de acesso às ferramentas de publicação, mas de conhecimento técnico do processo produtivo da notícia.

Wikis

No que consiste o mundo wiki?
O mundo wiki é formado por pessoas interagindo entre si através de uma ferramenta de publicação e edição na Web. São pessoas que por variados motivos - prazer em ajudar, curiosidade, desejo de angariar reputação, ou de fazer parte de algo maior, ou tudo isso junto - dedicam parte de seu tempo e força de trabalho a uma coletividade no mais das vezes impessoal, em prol da construção de um bem público.

O "espírito" wiki de colaboração pode encarnar no mundo off-line?
Pode e já o fez, na forma dos BarCamps, um tipo de "desconferência" em que os temas e programação são decididos pelos próprios participantes. Assim como acontece num wiki, nos BarCamps os interessados aparecem, todos são responsáveis por ajudar na organização do evento e o conteúdo é atualizado conforme o desenvolvimento das discussões: painéis são criados ou cancelados, o palco fica aberto a palestrantes em determinados momentos, grupos de trabalho se dividem quando surge um tema novo em meio a um debate.

Como medir, avaliar e entender as interações colaborativas no Wiki e em outras ferramentas?
Todo projeto colaborativo tem de ser analisado do ponto de vista de seus objetivos. Se as metas fixadas pela comunidade de colaboradores estão sendo atingidas, é porque as interações estão ocorrendo adequadamente. Se, por outro lado, o número de colaborações, edições e revisões das páginas é baixo, ou o número de colaboradores e contribuições começa a cair, é sinal de que há algo errado no projeto. Aí pode ser necessária uma refundação da comunidade, uma discussão aberta sobre os objetivos e processos editoriais.

Quais críticas você faria ao modelo wiki?
A Wikipedia deu certo, isso é inegável, mas o crescimento trouxe problemas de relacionamento dentro da coletividade. Muitos editores e administradores da enciclopédia têm sido acusados de agir arbitrariamente, ou de reificarem as regras estabelecidades pela comunidade (ponto de vista neutro, relevância dos verbetes etc.). Outro ponto levantado pelos críticos é que em geral as pessoas que têm tempo para se dedicar a um projeto da WikiMedia o suficiente para ser escolhida editor ou administrador são jovens estudantes, o que significa que têm pouca experiência ou jogo de cintura. Os viciados em Internet comandam a Wikipedia, no final das contas. Esse fenômeno parece se repetir em outros projetos colaborativos, não apenas baseados em tecnologia wiki. Isso tem afastado participantes da Wikipedia e de outros projetos. Então, o desafio que se coloca é encontrar o modelo mais adequado e agregador de gestão de projetos coletivos mediados por computador, ou ao menos meios de se evitar o desgaste das comunidades formadas em torno desses projetos.

Posso confiar na Wikipedia?
Se você está procurando informações histórica e científicas confiáveis para, digamos, incluir em sua monografia de conclusão de curso, numa reportagem, ou preparar um relatório na firma onde trabalha, o melhor a fazer é consultar uma enciclopédia escrita por profissionais. Porém, caso esteja apenas fazendo uma primeira aproximação a um determinado assunto, ou uma pesquisa informal, a Wikipedia se presta muito bem. Especialmente porque, ao final de cada verbete, há indicações das fontes que serviram para a redação e checagem dos dados. Essa lista serve para se aprofundar no tema do verbete. A Wikipedia também é muito boa para pesquisas a respeito de temas de cultura pop ou eventos muito recentes, que ainda não entraram para as enciclopédias tradicionais, ou nunca entrarão. Exemplos são biografias de artistas, históricos de programas de televisão, gírias e termos da informática.

O motivo pelo qual não se pode usar informações da Wikipedia para finalidades acadêmicas e científicas mais formais é a impossibilidade de se fazer uma referência confiável. Nunca se sabe como a página de um verbete vai estar, caso algum leitor queira verificar uma citação. Além disso, há a questão da credibilidade das fontes. Embora a maioria dos colaboradores da Wikipedia e outros tipos de repositórios de informação colaborativos em geral participem com boa-fé, nem sempre sabem do que estão falando. Usar obras de referência elaboradas por profissionais é uma maneira de minimizar o risco de erros, apesar de muitas delas apresentarem erros.